É comum recebermos no consultório jovens adultos trazidos por seus pais. Talvez se nós, na nossa cultura, não fôssemos todos testemunhas do prolongamento da adolescência, esta situação causasse ainda mais estranhamento.
De que se queixam esses pais que procuram psicoterapia para seus filhos de 20, 22 anos?
Não reclamam mais de rebeldia, como se esperaria há algumas décadas atrás. Nem do mau rendimento escolar, queixa mais adequada à infância. Os pais se queixam de apatia. Uma apatia que parece ser tamanha a ponto de fazer com que o jovem paciente abdique de seu próprio discurso, deixando, docilmente, que os pais demandem em seu lugar. Obedientes, eles comparecem à sessão, semanalmente. Quando questionados, falam de uma melancolia generalizada, desinteresse pelas atividades de modo geral- sociais e laborativas. Não há, no discurso destes jovens, pista alguma de onde poderíamos buscar um investimento libidinal que nos alavancasse o trabalho terapêutico. Nada é ressentido, não se encontra relação com nenhuma experiência afetiva traumática. A vida é um enorme oceano de tédio, sem faróis, ilhas, ou praias.
Entretanto, esse discurso obviamente não se sustenta por mais do que algumas sessões. Digo obviamente, porque sabemos que nós humanos nunca nos cansamos de desejar- nem que seja a morte. As falhas de coerência no discurso apático são denunciadas aqui e acolá pela alusão ao medo. Medo em diferentes manifestações mas que resumirei aqui num único: o medo da individuação. Estes jovens percebem que, de algum modo, o desejo vai diferenciá-los de seus pais. Vai trazer atritos, dissonâncias. Vai frustrar expectativas. E preferem, num movimento equivocado de amor, anular o próprio desejo. Não desejar nada- como se isso fosse possível. Não porque isso seja mais fácil, já que, de fato, não o é. Implica sofrimento de todo modo.
Mas a minha impressão é que diferenciar-se, hoje, exige uma radicalidade facilmente confundível com violência.
É como se de um lado estivesse a massa generalizada de uma classe social, cultural, econômica e para se fazer parte dela, há um script cada vez mais rígido. E de outro, as minorias todas tão minuciosamente classificadas. Parece que ser um indivíduo diferenciado significa ser banido da sua classe de maneira muito radical e abraçar uma causa minoritária. E aí não me refiro apenas àquelas minorias politicamente nomeáveis mas também àquelas outras que nomeamos informalmente: hippies, alternativos, nerds, maconheiros, intelectuais. A escolha é colocada de modo cruel: ou sou exatamente igual aos meus, ou sou um esquisito.
Não que diferenciar-se dos pais tenha sido jamais tarefa fácil ou mesmo esquivável. Talvez a apatia seja uma maneira de fazê-lo tão violenta quanto à rebeldia de outros tempos. A intensidade da violência sinaliza a dureza da tarefa de deslocar-se, mesmo que minimamente, do ideal atribuído a nós pelos nossos pais. Esses pais, a quem amamos tanto, mas que nos investem com um excesso de idealização amorosa aprisionante. Sempre me ocorre dizer nestes casos que ser diferente de alguém não é ofender. É preciso afrouxar a rigidez para comportar aquilo que é apenas tão idiossincrático como cada um de nós. Frustrar expectativas excessivamente idealizadas pode ser desconfortável, mas não é desamor e nem precisa ser abandono.
Tentamos então(re)construir na psicoterapia este lugar do desejo que é único, próprio, incomparável a qualquer outro, significando-o de forma nova, auto-referenciada, desidentificando-o da ameaça de ofender, frustrar, perder violentamente. Por mais estranho que nos pareça- a alteridade é sempre muito estranha, não?- diferença não é ofensa.
Para os pais aflitos pelos filhos apáticos, o recado é que é importante permitir e nomear a diferenciação dos filhos, mesmo que isso seja afetivamente dispendioso. Àquilo que não é diferença, só resta ser indiferença.