sexta-feira, 10 de junho de 2011

A (des)importância da função materna.

Faço uma reflexão sobre a maternidade, mais propriamente sobre a função materna.
E digo função materna porque maternagem é uma função: pode ser desempenhada por pais, avós, cuidadores, professores, amigos, etc. Não é exclusividade de mães biológicas e nem do sexo feminino.
E como função que é, maternagem é um trabalho.
Um trabalho árduo, delicado, ininterrupto e  desvalorizado. Nos referimos à maternagem como se fosse uma dádiva passiva da natureza, da ordem das coisas que, de tão elementares, arcaicas e essenciais,  não tem nome e estão prontas e acessíveis a qualquer tempo.
Não é bem assim.
Atentar para a maternidade como um trabalho permite que de fato nos debrucemos com mais investimento sobre ela. Crianças nascem uns saquinhos de ossos cheios de grito e fedor e dor e falta de sentido. Nós mães é que vamos, de tão à miúde que até parece invisível, dando formas humanas praquele bichinho. Nós dizemos, trêmulas por causa daquele choro incontível: ah, vc deve estar com fome. E oferecemos o seio. Completamos: Nossa, isso parece cansaço. E ninamos. E os lambemos e vestimos, passamos perfume em seus cabelos. Enfeitamos, ensinamos truques divertidos.
Isso é o que fazemos sendo mães suficientemente boas.
Suficiente porque nosso filho também se constrói nas nossas ausências. Nossas faltas, desatenções, nossa vontade de estar fazendo outra coisa, em outro lugar, com outra pessoa. A falta é essencial na constituição do psiquismo, e quem começa faltando somos nós, mães. Faltamos quando somos humanas e naturalmente nos interessamos por outras coisas, pelo parceiro, pelo trabalho, por arte ou por poder. Ensinamos, dessa forma, que  exclusividade não é uma possibilidade. Nosso bebê não é o bastante para nossa felicidade,  assim como nós mães, não preenchemos tudo que nossos filhos desejam. E isso é estruturante para todos nós.
Mas tudo isso- desejar, misturar, desmisturar, atentar para sutilezas do processo, nomear, significar, sentir culpa, sentir desejo, sentir culpa novamente porque somos mães e temos desejos, sentir saudade...Tudo isso é trabalho. Tudo isso é trabalho de subjetivação que, como mães, ofertamos passivamente para um outro. Um outro que vai galgar nossas costelas e pisotear sem dó nos nosso ombros para se tornar gente. Um outro, amado em sua alteridade- porque amar um filho é principalmente aceitar a sua diferença e a ela submeter a nossa. Somos tradutores mediando o mundo como o entendemos e o mundo como nossas crianças entenderão.
E isso é trabalho, talvez o mais árduo que exista. Abrir mão da manutenção egóica parar dar a luz do holofote a outro.
Mãe não é de graça, definitivamente.

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