segunda-feira, 27 de junho de 2011

TDAH: a falta de atenção que se passa adiante ou aonde quer que eu vá busco você com o olhar.

Nada mais em voga do que Transtorno de Atenção e Hiperatividade. É o diagnóstico da moda.

Ainda que não haja intenção pejorativa na constatação deste fato-  já que um diagnóstico acurado pode ser estruturante emocionalmente,  além de determinante no delineamento de um projeto terapêutico de êxito-, a disseminação do termo evoca a própria falta de consistência na caracterização do quadro. Uma série de sintomas descritivos em torno de três grandes  núcleos- desatenção, hiperatividade e impulsividade-  desgarrados de aspectos longitudinais de personalidade e significado emocional. Neste sentido, como situar este transtorno numa linha de desenvolvimento afetivo de modo a intervir para sua evolução positiva? É aquela velha pendenga: para que serve o diagnóstico se ele não trouxer benefícios ao paciente?

Debruçando-se com mais atenção sobre o tema,  é possível encontrar estudos que apontam similaridades na psicodinâmica de pacientes hiperativos. A maioria deles faz correlação entre este transtorno e o transtorno de personalidade narcisista. E o narcisista, como já abordamos, é aquele cujas fronteiras do próprio self são frágeis e mal delimitadas, exigindo constante esforço de atenção. Dificuldade para ouvir os outros, respeitar regras formuladas por outros- e aqui se inclui o tempo objetivo, respeito ao prazo das tarefas, adequação às regras de convivência social (permanecer sentado na sala de aula, por exemplo)- são sintomas de um caráter narcisista que sofre do mal primordial de ter nubladas as fronteiras que separam o seu próprio self do outro.  Isso significa que os outros são projeções de mim mesmo  e portanto, a percepção da  diferença presente na alteridade é frequentemente despercebida. Distrair-se facilmente de uma tarefa determinada é também uma maneira de dizer que a tarefa não importa ou que o outro vai tolerar meu tempo- afinal, ele sabe quem eu sou. Seguir toda e qualquer ideia que dá na telha é também controlador. Sigo meus objetivos prioritariamente e não aqueles acordados com meu chefe, meu professor ou meu companheiro. O narcisista tem o ego expandido e sofre pela falta de registro de regras que o contenha em seus limites. Ainda que não pareça, o ego inflado dói com uma sensação de ausência de identidade e de inadequação perene. Daí sua necessidade exagerada de que olhemos para eles,  esperemos o tempo deles e de que o controle das relações esteja em suas mãos: eles precisam que nós o certifiquemos de que ele existe, é individuado e tem valor. Ele precisa do nosso olhar confirmador.

Assim me parece também um típico paciente com TDAH. Seu olhar não se prende a nada por muito tempo e persistência é um problema. Parecem errantes, vagam de lá pra cá, sem orientação, buscando alguma coisa que os presentifique e sintetize. De fato, os hiperativos buscam o brilho nos olhos daquela mãe deprimida, dispersa, presente sim, mas de olhar esvaziado de desejo por aquele bebê. Pelo que os olhos da minha mãe brilham, que não por mim? O TDAH é um errante que vaga por aí sem destino, imaginando que em algum lugar- numa borboleta passando, num carro de som vendendo pamonha- ele vá encontrar o foco que fazia brilhar os olhos de seu cuidador  que fitava o horizonte sem se fixar. E este olhar brilhante de desejo finalmente o cruzará,  integrando e reafirmando sua existência subjetiva. Enquanto isso não acontece, ele passa adiante a falta do olhar que ele próprio vivenciou, buscando alhures, sempre. Inconscientemente, repetimos nosso sofrimento na esperança de que ele possa, na presença de outro, ser ressignificado e elaborado.

Não coincidentemente, há maior incidência de TDAH em filhos de famílias numerosas, onde não há atenção individualizada. Faz sentido também que este transtorno tenha se evidenciado a partir da entrada das mulheres no mercado de trabalho,  quando as mães e cuidadoras multiplicaram suas tarefas e interesses, mesmo cabendo lembrar que não é a simples ausência da mãe que adoece. Trata-se da ausência do olhar interessado do cuidador sobre aquela criança na sua especificidade. 

Outro dado interessante é que cerca de 23% dos pacientes com TDAH sofreram algum grau de abuso físico ou moral na infância. Neste caso, a falta do olhar presentificado parece ter alcançado os limites da negligência e é como se este indivíduo se cristalizasse neste momento traumático, no qual a desatenção do cuidador foi trágica e teve consequências nefastas. E então ele repete a desatenção disparatada e cruel de que foi vítima, sempre lembrando que toda repetição é uma tentativa, mesmo que disfuncional, de retomar o afeto envolvido de uma maneira mais saudável.

O transtorno de déficit de atenção faz pensar em duas coisas: Na necessidade contemporânea de sermos reconhecidos como indivíduo, que é cada vez maior e mais demandada pela cultura- certamente no século XIX filhos eram criados em dúzias e não caberia questionamento sobre a subjetividade de cada um; e na contraditoriedade entre esta necessidade e a dificuldade que temos, cada vez maior, de olhar o outro com amor na sua especificidade e diferença. O que não se pode dizer deste transtorno é que ele seja ultrapassado ou descabido. Ele é o próprio sintoma da comtemporaneidade.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre (a má reputação do) narcisismo.

Todo mundo empresta sem nenhuma cerimônia o termo narcisismo cunhado por Freud, pena que nem sempre de maneira fidedigna.

Freud, lá em 1914, identificou uma fase da constituição da subjetividade que acontece em torno do fim do primeiro ano de vida e que é definida pelo amor à imagem integrada do eu. Ele chamou esta fase do desenvolvimento de narcisismo, numa referência ao mito grego em que Narciso se apaixona pela sua imagem refletida no espelho das águas a tal ponto, que aliena-se nela, caindo no lago e morrendo afogado.

O objeto de amor do narcista é o eu integralizado. Cabe lembrar que, em teoria, o narcisista é um bebezinho  que acaba de dispender uma grande energia em sair do estágio de perverso polimorfo - a fase pré-narcísica na qual as pulsões são desintegradas. Satisfação oral, genital, anal, cada uma delas habita uma parte do corpo que é um corpo até então, desunificado e parcial . A idéia de eu ligada à imagem do corpo  começa a acontecer quando o bebê consegue reunir todas as pulsões parciais e alinhavá-las numa imagem global de si próprio. A imagem de nós mesmos que hoje reconhecemos facilmente no espelho não é uma associação automática, como parece. Ela é construída com alguns instrumentos. O primeiro deles é o ideal dos pais. A idealização que nossos pais fazem sobre nós, ainda que muito depressa tenham a trágica tendência de nos aprisionarem, são o casulo onde nosso eu vai se integrar e se desenvolver. A partir do que nossos pais sonham para nós organizamos o rascunho do humano que fomos autorizados a ser. Depois aperfeiçoamos o projeto.

Lacan dizia que quando o bebê se reconhece no espelho, ele reconhece a promessa que os pais fizeram a ele desde o princípio. A promessa de que, ele mesmo, é como nós que aqui vivemos:  adultos e integrados, humanos, culturais e falantes. Os pais garantem ao bebê que ele um dia se tornará um destes outros que ele vê. Que será inserido nesta linguagem que outros já compartilham. O bebê será um dia uma alteridade particular entre as outras. E essa subjetividade particular começa a ser grudada na imagem do humano que ele enxerga ao olhar no espelho.

No senso-comum associamos equivocadamente o narcisismo a um processo egóico de vaidade e auto-idolatria. Quando dizemos que alguém é narcisista, em geral estamos nos referindo a alguém bem desagradável. Um sujeito que só pensa em si, só fala de si, só cuida da sua própria aparência, quase que obsessivamente.
Entretanto, o narcisismo, tal qual descrito por Freud, fala de que a imagem integrada do eu é o nosso primeiro objeto de amor. Opa, estamos falando de amor e não de doença.  E mais: ele nos contou que essa primeira escolha de objeto de amor pela qual todos nós passamos é o que viabilizará a próxima fase do desenvolvimento : a escolha do objeto de amor sexual. Um outro de nós. 

O narcisista é uma pessoa que olha pra si o tempo todo, sim. Mas não por admiração. Ele fita sua imagem- e em geral é uma idéia de si mesmo que não encontrou muito respaldo nos que estavam próximos - initerruptamente para não perdê-la de vista. Seu temor é o de que, se parar de olhar pra ela, ela vai desaparecer. Ela é frágil e precisa de esforço consciente de manutenção.  Costumo fazer a comparação entre o eu narcísico e aquele número de CPF que a gente precisa decorar rapidamente: não podemos parar de pensar e repetir os números na sequência porque eles ainda não foram incorporados na memória. Mais tarde, tendo sido assimilados, não precisaremos mantê-los em foco a todo tempo. Eles  já se constituíram parte da memória rígida e os acessaremos quando precisarmos. 

Se pensarmos estritamente da maneira freudiana,  a retomada do narcisismo na fase adulta sinaliza a retomada de um investimento amoroso. E já que o amor narcísico é o pré-requisito do amor objetal, não é demais concluir que o narcisista está na pista certa do amor. 
Por outro lado, se usarmos a dica de Winnicott e suas tão pertinentes palavras: narcisistas são criaturas que enfim encontraram, na vida ou na psicoterapia, uma mãe suficientemente boa que lhes permitirá  finalmente fazer a transição do falso-self- aquele que foi adotado às pressas em nome da sobrevivência em um ambiente emocionalmente desfavorável - para a estruturação do verdadeiro self.

Adote um narcisista. São  les amoureux de amanhã.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A (des)importância da função materna.

Faço uma reflexão sobre a maternidade, mais propriamente sobre a função materna.
E digo função materna porque maternagem é uma função: pode ser desempenhada por pais, avós, cuidadores, professores, amigos, etc. Não é exclusividade de mães biológicas e nem do sexo feminino.
E como função que é, maternagem é um trabalho.
Um trabalho árduo, delicado, ininterrupto e  desvalorizado. Nos referimos à maternagem como se fosse uma dádiva passiva da natureza, da ordem das coisas que, de tão elementares, arcaicas e essenciais,  não tem nome e estão prontas e acessíveis a qualquer tempo.
Não é bem assim.
Atentar para a maternidade como um trabalho permite que de fato nos debrucemos com mais investimento sobre ela. Crianças nascem uns saquinhos de ossos cheios de grito e fedor e dor e falta de sentido. Nós mães é que vamos, de tão à miúde que até parece invisível, dando formas humanas praquele bichinho. Nós dizemos, trêmulas por causa daquele choro incontível: ah, vc deve estar com fome. E oferecemos o seio. Completamos: Nossa, isso parece cansaço. E ninamos. E os lambemos e vestimos, passamos perfume em seus cabelos. Enfeitamos, ensinamos truques divertidos.
Isso é o que fazemos sendo mães suficientemente boas.
Suficiente porque nosso filho também se constrói nas nossas ausências. Nossas faltas, desatenções, nossa vontade de estar fazendo outra coisa, em outro lugar, com outra pessoa. A falta é essencial na constituição do psiquismo, e quem começa faltando somos nós, mães. Faltamos quando somos humanas e naturalmente nos interessamos por outras coisas, pelo parceiro, pelo trabalho, por arte ou por poder. Ensinamos, dessa forma, que  exclusividade não é uma possibilidade. Nosso bebê não é o bastante para nossa felicidade,  assim como nós mães, não preenchemos tudo que nossos filhos desejam. E isso é estruturante para todos nós.
Mas tudo isso- desejar, misturar, desmisturar, atentar para sutilezas do processo, nomear, significar, sentir culpa, sentir desejo, sentir culpa novamente porque somos mães e temos desejos, sentir saudade...Tudo isso é trabalho. Tudo isso é trabalho de subjetivação que, como mães, ofertamos passivamente para um outro. Um outro que vai galgar nossas costelas e pisotear sem dó nos nosso ombros para se tornar gente. Um outro, amado em sua alteridade- porque amar um filho é principalmente aceitar a sua diferença e a ela submeter a nossa. Somos tradutores mediando o mundo como o entendemos e o mundo como nossas crianças entenderão.
E isso é trabalho, talvez o mais árduo que exista. Abrir mão da manutenção egóica parar dar a luz do holofote a outro.
Mãe não é de graça, definitivamente.

domingo, 5 de junho de 2011

A (não) autopercepção corporal.



Quem não acha super estranho se ver em fotos? É sempre um susto, algumas vezes um bom susto, mas sempre surpreendente. Isso mostra o grau de distorção com que apreendemos nossa imagem corporal.

Isso é assim porque a idéia que a gente tem do nosso corpo é muito diferente do corpo como ele é. A idéia que temos da nosso corpo é contaminada pela informação social que temos de nossas características psíquicas: sou teimosa, preguiçosa, pareço com meu pai, sou a mais alta das irmãs, etc. Isso pode variar para um esquema mais ou menos exato em cada caso, nem todo mundo tem uma idéia completamente distorcida do corpo real - mas todo mundo tem algum grau de distorção da realidade pura. E claro que tem aquelas situações mais graves, quem não conhece ao menos um caso daquela menina linda, linda, linda que é toda complexada porque se acha torta e orelhuda? Sem valo em toda a expectativa cultural de adequação a uma imagem esguia e caucasiana.

Não é nada simples mas mensagem é a seguinte: É preciso relaxar o julgamento que temos sobre a nossa auto-percepção corporal, ela não é fidedigna. Não, a gente não é tão gordo quanto imagina. Nem tão magro, nem nosso cabelo é tão horroroso que chama a atenção de todo mundo. Seu joelho não é torto e se for, bem, poucos vão notar com toda a ênfase e crueldade que só nós mesmos somos capazes de emprestar aos nosso defeitos.

Legenda: A imagem é de uma escala que mede a percepção corporal ligada ao peso em adolescentes. O grau de distorção obtém-se subtraindo o número da figura que representa o corpo que vc  acha que tem pelo número da figura de corpo que vc gostaria de ter.

Sobre lamber, morder, chupar, engolir, mastigar ou os dilemas da fase oral


Embore leve quando em vez uma mordida na escola, minha filha de 2 anos e meio ainda não descobriu a mordedura.



Digo "ainda" porque a experimentação oral é esperada: etapa necessária do desenvolvimento humano, embora eu receba muitos pais preocupadíssimos com o comportamento  pretensamente "agressivo" de seus filhos nesta idade. Morder eventualmente os coleguinhas da creche não é nada preocupante.

A angústia da fase oral, pela qual estes pequenos estão passando ( mesmo tão pequenos já tem suas primeiras angústias inconscientes!) tem a ver com a definição dos limites do corpo através da oralidade. Colocar objetos na boca, sentir o gosto, a textura, ter vontade e medo. Engolir, ser engolido. Misturar, separar. Ser um só, ser eu mesmo. A mamãe me engoliu ( sim, para a barriga de novo!) e eu acabei ou mamei a mamãe até ela acabar? Tudo é pensado- se fosse pensado como nós entendemos- do ponto de vista da boca. Pode parecer exagero, mas para quem há menos de 2 anos ainda estava preso a um cordão umbilical, dilemas orais são uma enorme evolução e sinalizam que a individualidade está sendo formada saudavelmente e que este pequeno serzinho já percebe-se como autônomo.


Superpoderes (sempre são ficções).

Todo super-herói que se preze, tem um super poder. 

Pode ser uma força sobre-humana, a capacidade de ficar invisível ou a velocidade ultra-sônica. Todos eles tem alguma habilidade que os diferencia da humanidade  e em geral é usada para a promoção do bem comum.



A proteção do bem comum ou, nas palavras de Freud, a manutenção do princípio do prazer ( evitar a dor- acima de tudo, evitar a dor; se possível, obter prazer) não é uma coisa exclusiva dos super-heróis. Pelo contrário, é uma coisa muito da mundana. Todos nós temos nossas armas de defesa e de manutenção daquilo que consideramos o nosso "bem" -  que equivale à preservação da ordem das coisas, afinal, já estamos acostumados a ela.  Mas não é difícil concluir que a manutenção do  conhecido não é equivalente ao bem à felicidade, ou mesmo ao prazer. Ou seja: o nosso entendimento do que nos faz bem está viciado por nossos medos. Más experiências amorosas, teorias enviesadas pelos fracassos e pelo valor da nossa existência, abalado nesse mundo individualista, formam um Fantástico Mundo de Bob ( substitua por João, Maria, José, Ana...) de cada um. E todo este aparato imaginário que criamos é tão profundamente arraigado nos nossos fundamentos mais arcaicos que é muito difícil separar o real daquele que é nosso real de estimação, tipo um cão de guarda: criamos à nossa própria semelhança, alimentamos, fortalecemos e ele vai ficando cada vez mais bravo.



Eu não sei se todo mundo se lembra  de um desenho dos anos 80 que se chamava " Jem e as Hologramas". Era um desenho bem de menina: uma banda de rock super famosa era composta por meninas que não eram popstars de fato, eram meninas  humildes de um orfanato. Elas tinham um brinco em forma de estrela que dava a elas um superpoder: o de projetar hologramas perfeitos de si mesmas, que enganavam todo mundo. Nestes hologramas elas eram super fashion, bem vestidas, talentosas,  roqueiras, corajosas,  tinha direito a nuvem de fumaça, luzes coloridas, tudo de bom. Mas a maior vantagem delas e o que, na minha opinião, conferia-lhes o super-poder é que elas SABIAM que o holograma não era real. E voltavam resignadas a serem elas mesmas depois do show.

Nosso problema é que somos as maiores vítimas dos nossos hologramas. E eles vão ficando tão perfeitos e ricos em detalhes ao longo do tempo, que já não sabemos mais diferenciar o real-real do real-persecutório.  E os hologramas tem detector de perigo e passam a se acionar automaticamente. Qualquer ameaça mínima e pronto: lá vem os efeitos especiais com brilho, som, cores e nuvem de fumaça.  Um grande espetáculo como o da Jem, só que para nós mesmos. Que bom seria que soubéssemos acionar nossos hologramas, conscientemente, apenas quando de fato precisássemos dele. Que bom seria identificar e reconhecer o nosso brinco em forma de estrela. E que ele ficasse quietinho a maior parte do tempo, saudavelmente, permitindo o encontro transformador com o real, a troca de afeto. E no caso de perigo real- que também precisaríamos aprender a identificar- tocaríamos de leve nossa estrelinha e tá-dá: toma aqui um pouquinho da minha (des)ilusão.