Todo mundo empresta sem nenhuma cerimônia o termo narcisismo cunhado por Freud, pena que nem sempre de maneira fidedigna.
Freud, lá em 1914, identificou uma fase da constituição da subjetividade que acontece em torno do fim do primeiro ano de vida e que é definida pelo amor à imagem integrada do eu. Ele chamou esta fase do desenvolvimento de narcisismo, numa referência ao mito grego em que Narciso se apaixona pela sua imagem refletida no espelho das águas a tal ponto, que aliena-se nela, caindo no lago e morrendo afogado.
O objeto de amor do narcista é o eu integralizado. Cabe lembrar que, em teoria, o narcisista é um bebezinho que acaba de dispender uma grande energia em sair do estágio de perverso polimorfo - a fase pré-narcísica na qual as pulsões são desintegradas. Satisfação oral, genital, anal, cada uma delas habita uma parte do corpo que é um corpo até então, desunificado e parcial . A idéia de eu ligada à imagem do corpo começa a acontecer quando o bebê consegue reunir todas as pulsões parciais e alinhavá-las numa imagem global de si próprio. A imagem de nós mesmos que hoje reconhecemos facilmente no espelho não é uma associação automática, como parece. Ela é construída com alguns instrumentos. O primeiro deles é o ideal dos pais. A idealização que nossos pais fazem sobre nós, ainda que muito depressa tenham a trágica tendência de nos aprisionarem, são o casulo onde nosso eu vai se integrar e se desenvolver. A partir do que nossos pais sonham para nós organizamos o rascunho do humano que fomos autorizados a ser. Depois aperfeiçoamos o projeto.
Lacan dizia que quando o bebê se reconhece no espelho, ele reconhece a promessa que os pais fizeram a ele desde o princípio. A promessa de que, ele mesmo, é como nós que aqui vivemos: adultos e integrados, humanos, culturais e falantes. Os pais garantem ao bebê que ele um dia se tornará um destes outros que ele vê. Que será inserido nesta linguagem que outros já compartilham. O bebê será um dia uma alteridade particular entre as outras. E essa subjetividade particular começa a ser grudada na imagem do humano que ele enxerga ao olhar no espelho.
No senso-comum associamos equivocadamente o narcisismo a um processo egóico de vaidade e auto-idolatria. Quando dizemos que alguém é narcisista, em geral estamos nos referindo a alguém bem desagradável. Um sujeito que só pensa em si, só fala de si, só cuida da sua própria aparência, quase que obsessivamente.
Entretanto, o narcisismo, tal qual descrito por Freud, fala de que a imagem integrada do eu é o nosso primeiro objeto de amor. Opa, estamos falando de amor e não de doença. E mais: ele nos contou que essa primeira escolha de objeto de amor pela qual todos nós passamos é o que viabilizará a próxima fase do desenvolvimento : a escolha do objeto de amor sexual. Um outro de nós.
O narcisista é uma pessoa que olha pra si o tempo todo, sim. Mas não por admiração. Ele fita sua imagem- e em geral é uma idéia de si mesmo que não encontrou muito respaldo nos que estavam próximos - initerruptamente para não perdê-la de vista. Seu temor é o de que, se parar de olhar pra ela, ela vai desaparecer. Ela é frágil e precisa de esforço consciente de manutenção. Costumo fazer a comparação entre o eu narcísico e aquele número de CPF que a gente precisa decorar rapidamente: não podemos parar de pensar e repetir os números na sequência porque eles ainda não foram incorporados na memória. Mais tarde, tendo sido assimilados, não precisaremos mantê-los em foco a todo tempo. Eles já se constituíram parte da memória rígida e os acessaremos quando precisarmos.
Se pensarmos estritamente da maneira freudiana, a retomada do narcisismo na fase adulta sinaliza a retomada de um investimento amoroso. E já que o amor narcísico é o pré-requisito do amor objetal, não é demais concluir que o narcisista está na pista certa do amor.
Por outro lado, se usarmos a dica de Winnicott e suas tão pertinentes palavras: narcisistas são criaturas que enfim encontraram, na vida ou na psicoterapia, uma mãe suficientemente boa que lhes permitirá finalmente fazer a transição do falso-self- aquele que foi adotado às pressas em nome da sobrevivência em um ambiente emocionalmente desfavorável - para a estruturação do verdadeiro self.
Adote um narcisista. São les amoureux de amanhã.
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