Nada mais em voga do que Transtorno de Atenção e Hiperatividade. É o diagnóstico da moda.
Ainda que não haja intenção pejorativa na constatação deste fato- já que um diagnóstico acurado pode ser estruturante emocionalmente, além de determinante no delineamento de um projeto terapêutico de êxito-, a disseminação do termo evoca a própria falta de consistência na caracterização do quadro. Uma série de sintomas descritivos em torno de três grandes núcleos- desatenção, hiperatividade e impulsividade- desgarrados de aspectos longitudinais de personalidade e significado emocional. Neste sentido, como situar este transtorno numa linha de desenvolvimento afetivo de modo a intervir para sua evolução positiva? É aquela velha pendenga: para que serve o diagnóstico se ele não trouxer benefícios ao paciente?
Debruçando-se com mais atenção sobre o tema, é possível encontrar estudos que apontam similaridades na psicodinâmica de pacientes hiperativos. A maioria deles faz correlação entre este transtorno e o transtorno de personalidade narcisista. E o narcisista, como já abordamos, é aquele cujas fronteiras do próprio self são frágeis e mal delimitadas, exigindo constante esforço de atenção. Dificuldade para ouvir os outros, respeitar regras formuladas por outros- e aqui se inclui o tempo objetivo, respeito ao prazo das tarefas, adequação às regras de convivência social (permanecer sentado na sala de aula, por exemplo)- são sintomas de um caráter narcisista que sofre do mal primordial de ter nubladas as fronteiras que separam o seu próprio self do outro. Isso significa que os outros são projeções de mim mesmo e portanto, a percepção da diferença presente na alteridade é frequentemente despercebida. Distrair-se facilmente de uma tarefa determinada é também uma maneira de dizer que a tarefa não importa ou que o outro vai tolerar meu tempo- afinal, ele sabe quem eu sou. Seguir toda e qualquer ideia que dá na telha é também controlador. Sigo meus objetivos prioritariamente e não aqueles acordados com meu chefe, meu professor ou meu companheiro. O narcisista tem o ego expandido e sofre pela falta de registro de regras que o contenha em seus limites. Ainda que não pareça, o ego inflado dói com uma sensação de ausência de identidade e de inadequação perene. Daí sua necessidade exagerada de que olhemos para eles, esperemos o tempo deles e de que o controle das relações esteja em suas mãos: eles precisam que nós o certifiquemos de que ele existe, é individuado e tem valor. Ele precisa do nosso olhar confirmador.
Assim me parece também um típico paciente com TDAH. Seu olhar não se prende a nada por muito tempo e persistência é um problema. Parecem errantes, vagam de lá pra cá, sem orientação, buscando alguma coisa que os presentifique e sintetize. De fato, os hiperativos buscam o brilho nos olhos daquela mãe deprimida, dispersa, presente sim, mas de olhar esvaziado de desejo por aquele bebê. Pelo que os olhos da minha mãe brilham, que não por mim? O TDAH é um errante que vaga por aí sem destino, imaginando que em algum lugar- numa borboleta passando, num carro de som vendendo pamonha- ele vá encontrar o foco que fazia brilhar os olhos de seu cuidador que fitava o horizonte sem se fixar. E este olhar brilhante de desejo finalmente o cruzará, integrando e reafirmando sua existência subjetiva. Enquanto isso não acontece, ele passa adiante a falta do olhar que ele próprio vivenciou, buscando alhures, sempre. Inconscientemente, repetimos nosso sofrimento na esperança de que ele possa, na presença de outro, ser ressignificado e elaborado.
Não coincidentemente, há maior incidência de TDAH em filhos de famílias numerosas, onde não há atenção individualizada. Faz sentido também que este transtorno tenha se evidenciado a partir da entrada das mulheres no mercado de trabalho, quando as mães e cuidadoras multiplicaram suas tarefas e interesses, mesmo cabendo lembrar que não é a simples ausência da mãe que adoece. Trata-se da ausência do olhar interessado do cuidador sobre aquela criança na sua especificidade.
Outro dado interessante é que cerca de 23% dos pacientes com TDAH sofreram algum grau de abuso físico ou moral na infância. Neste caso, a falta do olhar presentificado parece ter alcançado os limites da negligência e é como se este indivíduo se cristalizasse neste momento traumático, no qual a desatenção do cuidador foi trágica e teve consequências nefastas. E então ele repete a desatenção disparatada e cruel de que foi vítima, sempre lembrando que toda repetição é uma tentativa, mesmo que disfuncional, de retomar o afeto envolvido de uma maneira mais saudável.
O transtorno de déficit de atenção faz pensar em duas coisas: Na necessidade contemporânea de sermos reconhecidos como indivíduo, que é cada vez maior e mais demandada pela cultura- certamente no século XIX filhos eram criados em dúzias e não caberia questionamento sobre a subjetividade de cada um; e na contraditoriedade entre esta necessidade e a dificuldade que temos, cada vez maior, de olhar o outro com amor na sua especificidade e diferença. O que não se pode dizer deste transtorno é que ele seja ultrapassado ou descabido. Ele é o próprio sintoma da comtemporaneidade.
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