Todo super-herói que se preze, tem um super poder.
Pode ser uma força sobre-humana, a capacidade de ficar invisível ou a velocidade ultra-sônica. Todos eles tem alguma habilidade que os diferencia da humanidade e em geral é usada para a promoção do bem comum.

A proteção do bem comum ou, nas palavras de Freud, a manutenção do princípio do prazer ( evitar a dor- acima de tudo, evitar a dor; se possível, obter prazer) não é uma coisa exclusiva dos super-heróis. Pelo contrário, é uma coisa muito da mundana. Todos nós temos nossas armas de defesa e de manutenção daquilo que consideramos o nosso "bem" - que equivale à preservação da ordem das coisas, afinal, já estamos acostumados a ela. Mas não é difícil concluir que a manutenção do conhecido não é equivalente ao bem à felicidade, ou mesmo ao prazer. Ou seja: o nosso entendimento do que nos faz bem está viciado por nossos medos. Más experiências amorosas, teorias enviesadas pelos fracassos e pelo valor da nossa existência, abalado nesse mundo individualista, formam um Fantástico Mundo de Bob ( substitua por João, Maria, José, Ana...) de cada um. E todo este aparato imaginário que criamos é tão profundamente arraigado nos nossos fundamentos mais arcaicos que é muito difícil separar o real daquele que é nosso real de estimação, tipo um cão de guarda: criamos à nossa própria semelhança, alimentamos, fortalecemos e ele vai ficando cada vez mais bravo.
Eu não sei se todo mundo se lembra de um desenho dos anos 80 que se chamava " Jem e as Hologramas". Era um desenho bem de menina: uma banda de rock super famosa era composta por meninas que não eram popstars de fato, eram meninas humildes de um orfanato. Elas tinham um brinco em forma de estrela que dava a elas um superpoder: o de projetar hologramas perfeitos de si mesmas, que enganavam todo mundo. Nestes hologramas elas eram super fashion, bem vestidas, talentosas, roqueiras, corajosas, tinha direito a nuvem de fumaça, luzes coloridas, tudo de bom. Mas a maior vantagem delas e o que, na minha opinião, conferia-lhes o super-poder é que elas SABIAM que o holograma não era real. E voltavam resignadas a serem elas mesmas depois do show.
Nosso problema é que somos as maiores vítimas dos nossos hologramas. E eles vão ficando tão perfeitos e ricos em detalhes ao longo do tempo, que já não sabemos mais diferenciar o real-real do real-persecutório. E os hologramas tem detector de perigo e passam a se acionar automaticamente. Qualquer ameaça mínima e pronto: lá vem os efeitos especiais com brilho, som, cores e nuvem de fumaça. Um grande espetáculo como o da Jem, só que para nós mesmos. Que bom seria que soubéssemos acionar nossos hologramas, conscientemente, apenas quando de fato precisássemos dele. Que bom seria identificar e reconhecer o nosso brinco em forma de estrela. E que ele ficasse quietinho a maior parte do tempo, saudavelmente, permitindo o encontro transformador com o real, a troca de afeto. E no caso de perigo real- que também precisaríamos aprender a identificar- tocaríamos de leve nossa estrelinha e tá-dá: toma aqui um pouquinho da minha (des)ilusão.
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